Crise fecha lojas e cria corredores de tapumes em shoppings centers

Crédito: Lílian Cunha

O empresário paulista Jae Lee tem várias franquias em shoppings. Uma delas era a de um restaurante, tinha um custo fixo mensal de R$ 72 mil – o valor incluía o aluguel, a taxa de condomínio e o fundo de propaganda.

“Com a pandemia e sem faturamento, resolvi fechar e ir para a rua. Adivinha quanto vou pagar de aluguel, num ponto ótimo e maior, na Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, em Pinheiros? R$ 7 mil por mês!”

Por conta desse custo elevado, Jae Lee planeja fechar 21 de suas 300 lojas em centros de compras. E mudar para rua. Ele explica a principal razão: “O custo de ocupação, que girava em torno de 8% a 10% do faturamento, agora está em 25%, 30% porque as vendas caíram muito. Não dá para aguentar”, diz ele, que é sócio-fundador do Grupo Ornatus, que inclui marcas como Morana, Balonè Fashion Bijoux e Little Tóquio restaurantes. Também tem participação na Puket e Imaginarium.

  • Em alguns shoppings, como o Pátio Higienópolis, em São Paulo, das 350 lojas, pelo menos 37 estão fechadas (10,5% do total)
  • Em condições normais, sem crise, a vacância das lojas em centros de compras gira em torno de 5%. Agora, segundo a associação do setor, está em 8%
  • Com vendas bem menores, lojistas não conseguem arcar com as taxas que um shopping cobra

Ele não é o único. Quem dá uma volta em grandes shoppings de São Paulo percebe isso. Há vários corredores em que só se vê tapumes. No shopping Pátio Higienópolis, das 350 lojas, a reportagem contou 37 fechadas – sem incluir as que estão em reforma.

A entidade do setor, a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers, diz que a taxa de vacância nos 577 centros de compras do Brasil passou de 5% antes da pandemia para 8% agora. “Tivemos 10 mil lojas fechando. Mas outras 6 mil lojas foram abertas. Então, o saldo negativo é de 4 mil lojas”, diz o presidente Abrasce, Glauco Humai.

Queda nas vendas

No relatório trimestral da Iguatemi Empresa de Shopping Centers, que tem participação em 14 shopping centers, a companhia diz que a capacidade de utilização média do portfólio atingiu 69% em setembro. As vendas totais ficaram em R$ 1,8 bilhão no terceiro trimestre, com queda de 45,2% em relação ao mesmo período de 2019.

As vendas, na comparação entre as mesmas lojas, caíram 37,5% e as vendas no critério “mesma área” caíram 42,9%. Em setembro, com todos os shoppings abertos, houve queda de vendas de 21,3% (mesmas lojas) e de 22,2% (mesma área). Os aluguéis (comparando-se as mesmas lojas em 2019 versus 2020) declinaram 28,5% e, no critério mesma área, encolheram 32,8%.

O Iguatemi divulgou que “não comenta sobre relações comerciais com lojistas e taxa de ocupação”.

Janeiro será pior

“O fato é que poucas são as marcas que não fecharam lojas”, diz Tito Bessa Junior, presidente da Ablos (Associação Brasileira de Lojas Satélites). “Acredito que a partir de janeiro, outros shoppings devem ter uma vacância maior que a de hoje. Isso porque, dos lojistas que estão ainda aguentando, muitos vão segurar as pontas somente durante esse final de ano, que representa 25% a 30% do faturamento anual. Seria uma forma de buscar minimizar prejuízo”, diz ele.

Mas em todo lugar é assim?

Não. A crise nos shoppings não é uniforme. Existem regiões mais afetadas que outras e formatos mais atingidos também. Shoppings que dependem do movimento de trabalhadores do entorno, como o Vila Olímpia, em São Paulo, estão vazios, uma vez que muita gente está trabalhando em casa. A Multiplan, proprietária do shopping, não quis comentar.

“Os mais elitizados também sofrem mais que os populares”, diz Jae Lee. Isso porque o público das classes mais altas tende, geralmente, a ser mais adepto do isolamento social e mais cauteloso em relação a situações de contágio.

Por isso, shoppings com arquitetura mais aberta saem ganhando. Em Campinas, no interior de São Paulo, o Shopping Galleria é um deles. Com jardim a céu aberto no seu interior, o centro de compras tem ventilação natural. Lojistas que não quiseram se identificar, disseram que as vendas estão se recuperando e que, das 205 lojas, apenas 10 estão sem alugar – mesma quantidade de antes da pandemia.

No Nordeste, Norte e Centro Oeste do País, segundo Humai, da Abrasce, a crise nos shoppings é bem mais branda. “Muitas de nossas lojas, nessas regiões, estão faturando 100% do que se faturava há um ano. Em alguns casos, 120%”, diz Jae Lee.

O que dizem os shoppings?

O Galleria e o Pátio Higienópolis informaram que “seguem trabalhando para a atração de novas marcas e reforço de seu mix de operações e que em breve divulgarão as próximas novidades”.

As negociações entre shoppings e lojistas, segundo Humai, estreitou muito o relacionamento entre as duas partes. Houve empresas que até fizeram empréstimos para os donos de loja. “Hoje, os lojistas e os shoppings trabalham juntos para oferecer novos formatos de venda, como drive thrus e vitrines virtuais”, diz ele.

“Mas um ponto que ainda preocupa é se tivermos uma segunda onda da doença. Caso seja preciso fechar tudo de novo. Aí realmente seria complicado”, diz Pedro Galdi, analista da Mirae Asset.

Qual é a saída, então?

Para os lojistas, muitos dizem, é ir para rua. “As pessoas não querem mais tudo igualzinho, padronizado, as mesmas lojas de sempre. E shopping, aqui em São Paulo, em Ribeirão Preto ou em Fortaleza, é tudo igual”, diz Jae Lee.

Para os shoppings, os imunologistas dizem que a saída é aumentar a ventilação natural. Isso implicaria, por exemplo, em reformas, em mudanças arquitetônicas. Investimento que é difícil de fazer durante uma crise. “Essa é uma mudança que já vinha acontecendo e que a pandemia acelerou. Você vê os shoppings dos anos 60, eram uns caixotes. Os mais atuais tem jardins, ventilação e iluminação natural. Já era uma tendência”, diz Humai.

A rede de franquias Nutty Bavarian, que tem mais de 100 quiosques em shoppings, por exemplo, não está mais incentivando a abertura exclusivamente centros de compras, como fazia antes. Agora, os franqueados são estimulados a buscar redes de pet shop, atacarejos e até parques. Recentemente, a marca abriu uma unidade da rede no parque no Ibirapuera, em São Paulo. A primeira em um parque.

A junção com meios digitais de venda também é outra solução. Hoje, os shoppings são mais multicanais e isso tem ajudado nas vendas, segundo a Abrasce. “No Dia das Mães, durante a pandemia, nossa queda nas vendas foi de 85%. Agora, para o Natal, nossa expectativa é de 2% em relação a 2019”, diz Humai. E isso acontece justamente por esse esforço dos lojistas de ir atrás do cliente pela internet e não só ficar esperando que ele passe em frente sua loja, no shopping.

Fonte: 6 Minutos | 08 de dezembro de 2020.