Se os robôs tomarem os postos de trabalho, quem vai comprar do varejo?

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Em algumas cidades da Europa, ciclistas e motoqueiros estão sendo tirados do serviço de entrega de pizzas da Domino´s. A startup Starship Technologies, fundada pelos cofundadores do Skype, Ahti Heinla e Janus Friis, desenvolveu um robô que entrega comidas e bebidas a mais de 40 mil estudantes e funcionários da Universidade de George Mason, na cidade americana da Virgínia. Starbucks e Dunkin’ estão na fila para fazer o mesmo.

Depois de dominar a indústria e o campo, a robotização avança sobre o setor de serviços. Essa nova fase pode deslocar até 375 milhões de trabalhadores de suas funções até 2030, o que representa até 14% da força de trabalho no mundo, segundo o estudo “Trabalhos perdidos, trabalhos conquistados: transição da força de trabalho em tempos de automação”, da McKinsey.

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Com a robotização, os ganhos com eficiência e redução de custos são promissores. Fundador e CEO da Olos Tecnologia, que produz robôs para centrais de atendimento, Paulo Godoy destaca que um robô custa um terço de um humano para os contact centers e que um atendimento feito em 1 minuto e 15 segundos por uma pessoa pode ser reduzido a 33 segundos quando realizado por um robô. “Uma posição de atendimento humano custa até R$ 10 mil por mês. Se você tem um contact center com cem PAs, os custos são de R$ 1 milhão por mês. Um robô sai por um terço desse valor”, aponta o executivo.

Junto com os contact centers, o segmento de restaurantes de fast-food está entre os que mais empregam jovens no País, o perfil de trabalhador mais sujeito a empregos da base da pirâmide. Para além dos subempregos e salários ruins, os jovens encontram cada vez mais dificuldades de entrar qualquer trabalho. Em dezembro do ano passado, 11 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos estavam na situação chamada de “nem nem”, nem estudam nem trabalham, o que representa um índice de desemprego de 23% – o dobro da média total no País e acima da média de desemprego entre jovens na América Latina, que é de 21%.

O Burger King trabalha com uma política de contratação de jovens de primeiro emprego, mas está iniciando seu processo de robotização no Brasil, ainda limitado ao on-line. “Existe um plano de roll out para nossos outros canais com o objetivo de, cada vez mais, estreitar esse relacionamento com nossos consumidores, resolvendo possíveis problemas e tirando dúvidas de forma mais rápida e eficiente”, diz Ariel Grunkraut, diretor de Vendas e Marketing do Burger King Brasil.

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Professora de sociologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Carla Dieguez, destaca que, em uma sociedade sem emprego, o salário tende a diminuir ainda mais. “É a intensificação do leilão de salários. Quem cobra menos, o mercado emprega. Com isso, você tem menos dinheiro no consumo e, com menos consumo, crise da indústria”, avalia. A especialista lembra que, no começo do século 20, o empresário Henry Ford fez o contrário e popularizou a política de aumento salarial para estimular o consumo. “Havia a preocupação em ter um trabalhador com condição de consumir aquilo que ele produz”. Hoje não é assim, diz ela. “O cálculo do empresário é sempre a questão do custo e da eficiência, aquilo que a substituição do trabalhador vai trazer em termos práticos”, aponta.

Substituição dos trabalhos

Grunkraut destaca que a implementação da tecnologia nos atendimentos em fast-foods tem potencial para impactar de forma positiva o atendimento dos consumidores e trazer mais inteligência para o business. “No momento em que adotamos processos automatizados para alocar tarefas mais simples e repetitivas, as pessoas assumem papéis cada vez mais relevantes no processo de decisão de compra, proporcionando experiências únicas e personalizadas ao consumidor”.

Carla não concorda com a afirmação de que, com o passar do tempo, a economia será capaz de restabelecer naturalmente os postos de trabalho com a especialização da mão de obra antes dedicada a trabalhos mais simples. Ela afirma que as últimas transformações tecnológicas no mundo acabaram por deixar um saldo negativo de empregos, o que aumenta progressivamente o número de desempregados por desalento.

A região metropolitana de São Paulo é um exemplo. Ao longo da segunda metade do século 20, a região concentrou uma parte representativa do trabalho industrial e impulsionou a economia do País. Mas, hoje, o cenário é outro. Em janeiro, a região concentrou 16,6% de desempregados, bem acima da média nacional, de cerca de 12%, segundo o IBGE. “Isso já demonstra que estamos perdendo emprego e não conseguimos fazer o retorno desses sujeitos ao mercado de trabalho porque as vagas disponíveis exigem uma especialização que os sujeitos não possuem”, diz Carla.

A especialista destaca que o País patina na intenção de criar arranjos econômicos capazes de recuperar o crescimento do emprego e da renda. O Estado, diz ela, tem que entender quem são os trabalhadores fora do mercado, quais competências eles têm e quais precisam desenvolver para então especializar a mão de obra via programas de qualificação profissional. Para Carla, os brasileiros se encontram em situação semelhante à dos americanos após a crise de 2008, quando os Estados Unidos precisaram recorrer à flexibilização do trabalho para aumentar o número de pessoas ocupadas e, assim, devolver a elas o poder de compra. O resultado foi positivo, mas a recuperação da renda foi limitada. “As taxas de desemprego baixaram muito por conta da criação de muitos empregos na base da pirâmide, como em supermercados e aplicativos de compartilhamento, por exemplo. Isso criou empregos de baixíssimos salários, o que necessariamente produz desigualdade”.

De acordo com a McKinsey, os robôs vão afetar a carreira de 16 milhões de brasileiros até 2030. Até lá, mais da metade das atividades no País seriam substituídas por robôs. Esse avanço da tecnologia sobre o mercado de trabalho aumenta o medo do desemprego. Segundo a International Stress Management Association, uma das mais respeitadas organizações de pesquisa, prevenção e tratamento de estresse, o que mais aflige os trabalhadores brasileiros é o medo de perder o emprego, principal temor para 67% dos profissionais.

Professor de Economia e Administração da PUC-SP, Leonardo Trevisan estuda os efeitos da robotização sobre o mercado de trabalho e destaca que esse medo é compreensível. “Se você observar o quadro norte-americano, muito do desemprego que persiste é por conta do desalento (de quem não se vê capaz de se recolocar). Isso é produto não só do fato de as empresas locais irem para outros lugares, mas também por conta da robotização”, avalia.

O Walmart estuda os efeitos do fim do emprego

Mais de 2 milhões de pessoas. Essa é a quantidade de mão de obra que o Walmart tem em seus estabelecimentos nos diversos países por onde opera. Isso coloca a rede varejista como a empresa que mais emprega no planeta. Com o avanço da automação, o Walmart viu a necessidade de estudar os efeitos desse processo sobre o emprego e a renda. Afinal, em algum momento, o seu empregado é também seu consumidor.

Com a McKinsey, o Walmart desenvolveu o relatório “América no trabalho: um mosaico e um roteiro para o amanhã”, mostrando que as tecnologias existentes nos EUA já são capazes de reduzir entre 32% e 62% o tempo gasto com as atividades no trabalho. Segundo o estudo, as vantagens são a criação de empregos inéditos, a requalificação profissional, a mobilidade no mercado de trabalho, a construção e a manutenção da infraestrutura urbana e rural, a modernização da rede de segurança social e o fortalecimento da educação.

Para o professor Fernando Madani, coordenador do curso de Engenharia de Controle e Automação do Instituto Mauá de Tecnologia, o avanço dos robôs sobre o setor de serviços e atendimento não é tão diferente do que se viu nas outras revoluções tecnológicas. O que muda são o tempo e a amplitude da mudança. “O que nos causa medo é a velocidade da transformação. Além disso, antigamente tínhamos locais mais afastados que eram menos impactados porque o consumo era mais regionalizado. Isso mudou”.

O relatório do Walmart e da McKinsey confirma o que Madani fala ao apontar que regiões rurais nos Estados Unidos chegam a ter 25% das profissões sendo automatizadas em pelo menos 70% das suas atividades diárias. Essas regiões concentram os trabalhos com maior possibilidade de automação, empregos esses que já não estão mais relacionados a funções industriais ou rurais; estas já automatizadas há décadas. Agora, é a vez dos serviços.

Para Trevisan, a automação é um caminho sem volta, mas isso não significa necessariamente que a humanidade ficará à mercê do desemprego e da falta de renda. “O homem não tem que entender a máquina como uma ameaça, mas como aliada. Sempre haverá trabalhos realizados por mãos humanas e a eficiência de uma máquina está relacionada ao que ela aprende com uma pessoa. Por sua vez, o trabalhador que será recolocado precisa estar aberto à formação contínua. Temos que aprender a nos reinventar”, explica o professor.

Isso dependerá, claro, da capacidade da iniciativa privada e do poder público de evitar que os livros de economia das próximas décadas copiem os de ficção científica do início do século 20, nos quais a humanidade era marginalizada por não ser mais útil para a acumulação de riquezas. A resposta para a pergunta sobre quem comprará do varejo quando os robôs se tonarem maioria nos postos de trabalho parece ser óbvia: ninguém. Portanto, a discussão sobre como evitar a destruição da renda das pessoas é cada vez mais urgente.

Fonte: No Varejo | 10 de abril de 2019