Pequenos empreendedores travam luta diária para manter negócios durante a pandemia do coronavírus

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Aos 27 anos, Rodrigo Costa realizou o sonho de abrir o próprio negócio. Junto ao irmão, Rodolpho Costa, 23, ele registrou seu primeiro CNPJ. Antes, vendia espetinhos, mas desde outubro de 2019, na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife, abriu uma petiscaria. Fins de semana de casa cheia, com muita gente reunida, era a realidade do estabelecimento. De uma hora para outra, tudo mudou. “A gente vinha muito bem. Ninguém imaginava que isso iria acontecer. É difícil”, lamenta Rodrigo, ao ser questionado sobre a chegada da covid-19. Manter o negócio – com menos de um ano – vivo tem sido “uma luta diária”, classifica ele, como também outros milhares de empreendedores Brasil afora. Não bastassem os desafios já impostos pelos custos e burocracia comuns ao País, os pequenos agora travam uma nova batalha para manter a renda – de suas famílias e dos funcionários, sem que para isso coloquem em risco seu maior patrimônio: a saúde. Por via de regra, estão tendo que se adaptar.

A petiscaria 351, dos irmãos Costa, de quarta a domingo, estava de portas abertas. Nas últimas semanas, passou a estar com apenas meia porta aberta, o que não significa que o trabalho parou. “A gente tinha o atendimento de praça, mas acabamos precisando nos adaptar. Pensamos em não parar porque, de um lado, tem a necessidade de ajudar o pessoal que tá isolado em casa e, por outro lado, a gente precisa manter alguma atividade para arcar com os custos da empresa e dos funcionários”, diz Rodrigo Costa.

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Já que os clientes não podem ir à petiscaria, a opção foi fazer com que os pratos e bebidas servidos lá chegassem à clientela. “Na operação normal, temos seis funcionários, no momento eles estão afastados e ficaram só duas pessoas. Meu irmão mesmo está fazendo as entregas. A gente não tinha delivery, mas agora já vejo como uma oportunidade de ser algo mantido até depois que isso passar. No começo, tivemos uma queda de 75% do faturamento normal, mas o pessoal tem abraçado a ideia e acredito que ao fim do mês conseguiremos pagar custos e a folha dos funcionários”, detalha o empreendedor.

De acordo com dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE), as empresas de micro, pequeno, médio porte e os Microempreendedores Individuais (MEIs) representam quase a totalidade dos estabelecimentos no Estado, com 97,4% da fatia dos negócios. “Esse fato é preocupante, pois os pequenos negócios podem ser os mais afetados com as medidas restritivas, visto que são mais sensíveis a momentos de recuo na demanda, em especial quando o período é prolongado e, geralmente, não possuem grandes reservas financeiras para passar por crises graves”, explica o economista Rafael Ramos.

Em levantamento feito pela Fecomércio-PE com mais de 1,3 mil empreendedores, caso os estabelecimentos permaneçam fechados a maior preocupação é com o pagamento da folha salarial, para 87,5% deles. Sem clientela, os negócios ficam sem caixa, comprometem os empregos e podem gerar um efeito dominó em toda a cadeia econômica e social.

A praia do Pina vazia ainda é um cenário difícil de ser compreendido como realidade pela microempreendedora individual Talita Santos, 22 anos. À frente do negócio da família, junto com os pais, Ronildo José e Zenilda de Lima, ela tem contado até então com a solidariedade dos clientes para dar conta do orçamento de 15 pessoas, que tinham como fonte de renda o faturamento da barraca doPingo.

“Não só na praia, mas também nas ruas, dá uma tristeza. Você fica sem acreditar que isso tudo está acontecendo. E tem gente que ainda pensa não ser algo sério. A gente sabe que precisa ficar em casa, mas também temos a realidade que lá da barraca sai ocupação e renda para muita gente. Mesmo não sendo muito dinheiro, era tudo o que tinha, mas agora pra muita gente, de cada pessoas a renda, mesmo não sendo muita, servindo e nessa situação não temos como ajudar eles”, desabafa.

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A preocupação de Talita, não se restringe a ela. O peso de estar parada recai com ainda mais força porque atinge várias famílias. “Das 15 pessoas, cinco são da mesma família e os outros 10, cada um representa uma família que agora está passando dificuldade. Eles esperam a semana para conseguir esse dinheiro aos sábados e domingos, fora almoço e café da manhã que também damos na barraca. Dois dos que trabalham com a gente têm que pagar pensão, a gente vai ajudar para eles poderem pagar. Um cliente nos deus 50 cestas básicas e nós na verdade distribuímos. Agora, no fim do mês, estamos contando com o dinheiro de uma vaquinha online que uma outra cliente fez, para pagar o aluguel de casa e dos equipamentos de trabalho”, adianta ela.

Através do vakinha.com.br/vaquinha/vamos-ajudar-a-barraca-de-pingo já fora arrecada uma boa quantia, mas, para o próximo mês, a intenção já é retomar parte das atividades com delivery de caipifruta, petiscos e caldinhos.

Mas manter as atividades não significa estabelecer uma falsa dicotomia entre a priorização da saúde ou da sobrevivência financeira. dos empresário ouvidos pela Fecomércio em todo o Estado, apenas 14,6% deles acreditam que a abertura dos estabelecimentos deve ser sem restrições e 36,7% acreditam que deve estar aberto apenas o que é essencial.

Com a barbearia onde trabalha fechada, o microempreendedor individual Leandro Souza, 31 anos, passou a adotar o atendimento em casa. Para isso, além das máquinas e tesouras para corte de cabelos e barbas, seguem junto com ele máscaras, luvas, álcool em gel e álcool líquido para higienização.

“Não estava atendendo ninguém até ver as contas se acumulando. Tenho uma filha de um ano, minha esposa está de férias, então tinha que trazer alguma renda para casa. Baixei um aplicativo e estou fazendo agendamento dos clientes por lá. No máximo, são cinco por dia, num roteiro único que monto para ter o menor contato possível com as pessoas”, garante ele.”Estou sendo o mais cuidadoso possível. Se pudesse, realmente estaria em casa, mas não posso”, emenda.

No salão, no mínimo, a rotatividade era de 10 clientes ao dia, dividindo o faturamento com as taxas cobradas pelo uso do espaço. “Nessa situação, a gente acaba até mesmo trabalhando menos, em relação às horas trabalhadas no salão e ganhando o mesmo ou até mais, no meu caso, já que não estou repassando nada do que estou recebendo”, afirma Souza.

Nem todo mundo, no entanto, teve essa oportunidade. Para o taxista Ivanilson da Silva, 48, a torcida é só para que tudo isso passe logo. “Para ser bem sincero, eu nem sei o que estou fazendo aqui na rua. A gente passa o dia para ter uma corrida. Volto para casa com R$ 30. Mas se não for isso, não sei. É daqui que tem de onde tirar”, lamenta.

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Suporte do Sebrae

A partir da semana que vem, o Sebrae-PE espera facilitar a tomada de crédito por parte dos pequenos empreendedores. De acordo com a instituição, em números levantados na última semana, 88% dos empresários viram o faturamento cair em média 75%, e ainda assim, numa situação de emergência, 60% das micro e pequenas empresas e MEIs tiveram crédito negado quando solicitado às instituições financeiras.