Mercado sobre rodas se torna a cada dia mais popular

Thiago Tenório montou um serviço de banho e tosa de cachorro à domicílio, o Bicho Feliz 
Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Do Pet Móvel ao trailer de sapatilhas femininas. Assim é a variedade do mercado sobre rodas, que vem se tornando cada dia mais popular entre pessoas que procuram uma alternativa para ganhar dinheiro e sair das estatísticas do desemprego. Em Pernambuco, apesar de a taxa de desocupação ter caído de 16% para 15,8%, do segundo para o terceiro trimestre de 2019, ainda é grande a quantidade de pessoas em busca de uma oportunidade. Com a expectativa de conquistar uma vida mais estável financeiramente, os donos desse tipo de negócio consideram o mercado sobre rodas uma boa alternativa para se montar uma empresa.

Pensando assim, a sócia da Rick Dog Lanches, Araly Vilar, decidiu investir neste negócio. Há pouco mais de três meses, ela e o primo resolveram investir em um trailer, que fica quase em frente ao parque da Jaqueira, na expectativa de faturar no ramo de alimentação. “Faziam muitos anos que eu trabalhava para os outros e resolvi então investir e trabalhar para mim mesma. Comida é um ramo que dá dinheiro”, explica. O trailer em que Araly montou o negócio é alugado. Logo de início ela vendia hambúrguer, cachorro quente e salgados. Mas depois resolveu acrescentar a venda de crepes.

Além do aluguel pago mensalmente, despesas como energia também são custeadas por ela. “A gente teve o privilégio de pegar tudo organizado aqui, mas como algumas despesas são altas, é difícil manter o negócio”, afirma. Mas apesar das dificuldades, foi a oportunidade para ela conquistar a independência financeira. Para Araly, existem algumas vantagens em ter um negócio desse tipo. “O pessoal que vai comer procura um lugar organizado, limpo. É o visual que chama atenção. Já fiz curso e tenho conhecimento na área. Na minha cabeça, se posso fazer para os outros, é melhor fazer para mim mesma”, ressalta.

No entanto, há quem decida migrar e sair do ramo de alimentação para o de calçados. Foi por esse caminho que a dona da Leve Sapatilhas, Millena Carvalho, resolveu seguir. Ela vendia coxinhas no pote, mas há cerca de um ano e meio passou a vender sapatilhas para mulheres. Ela tem uma van que circula por alguns pontos pela cidade do Recife e um trailer em um ponto fixo na Rua Senador José Henrique, no bairro da Ilha do Leite. “Já tínhamos o trailer por conta do antigo negócio, quando trabalhávamos no ramo de alimentação. Por isso foi mais fácil começar, pois só precisamos adaptar”, explica.Para ela, esse tipo negócio consegue se encaixar melhor no cotidiano das pessoas. “Optei por uma empresa móvel para ter mais dinâmica para atender o público. É que a gente sabe que hoje as pessoas têm pouco tempo”, afirma Millena, dizendo que a van tem mais conveniência de deslocamento.

Ela ainda relata que precisa chegar logo no início da manhã para conseguir uma vaga no ponto onde sempre fica. Nos fins de semana, além da van, o trailer com as sapatilhas também passa a ser móvel. Para Millena, com a expansão do negócio (van móvel), o número de vendas chegou a dobrar. É que com dois locais, ela consegue atingir um público maior. “Quando a gente fica fixo num local, logo de início conseguimos um percentual bom de vendas. Mas com o tempo e o costume das pessoas passarem pelo local, não gera mais aquela ansiedade da compra. Com a van, atingimos mais lugares e tornamos o negócio mais rentável”. detalha.

O mercado o sobre rodas tem de trailer até carrocinha. E é assim que Allyson Bruno da Silva montou o seu próprio negócio. Há seis anos, ele montou uma carrocinha onde, no Bairro do Recife, vende películas para celular, fones de ouvido, carregadores. O veículo impressiona, pois num pequeno espaço, Silva consegue ofertar uma variedade de produtos. “A pessoa com um salário mínimo hoje não sobrevive”, pondera. Ele diz que em alguns dias chega a trabalhar 12 horas, mas em outros trabalha 5 horas. “Já tive loja, mas aqui você não tem tantas despesas. É mais vantajoso. Estou aqui, mas quando o cliente liga eu posso ir até ele. É mais praticidade para o cliente receber o pedido na porta. E nesse tipo de negócio móvel consigo faturar melhor”, explica.

Dos EUA para o mundo
O negócio sobre rodas surgiu há muitos anos atrás fora do Brasil. O início, por assim dizer, aconteceu nos anos 90, nos Estados Unidos, com os famosos trailers de hot dog próximos às construções civis. Era uma comida rápida e barata, voltada para o público com baixo poder aquisitivo. “Aquele caminhão de sorvete norte-americano é um exemplo clássico do negócio sobre rodas que desde a década de 90 a gente vê nos filmes”, explica o analista do Sebrae Danilo Lopez.

Para ele, esse tipo de negócio é uma tendência, uma vez que não saiu de moda. “No Brasil, um dos pioneiros foi o Rolando Massinha, no estado de São Paulo, que começou em 2007 e vendia massas numa Kombi”, destaca Lopez. Ainda de acordo com ele, essa forma de empresa resolve alguns problemas da sociedade contemporânea. “É uma tendência porque atua em uma contramão que é a falta de mobilidade das cidades urbanas que a gente vivencia hoje. Com a dificuldade de tráfego das grandes metrópoles, as pessoas estão comendo e procurando produtos e serviços em algum lugar mais perto de sua casa”, complementa.

Um outro problema que esse tipo de negócio “resolve” é em relação à ocupação de espaços públicos. “O negócio sobre rodas contribui em problemas como a ocupação urbana. É que a gente percebe que eles trazem uma maior sofisticação para o local, maior leque de produtos e ainda ocupa espaços que poderiam estar sem utilidade, abandonados. O negócio trás uma maior movimentação de pessoas em seu entorno”, afirma Danilo Lopez.

No entanto, para o especialista do Sebrae, o diferencial não é apenas o fato de estarem sobre rodas. “De nada adianta ter um truck lindo, mas o preço não ser competitivo e o produto não ser diferenciado”, explica. Por outro lado, o fato de estar sobre rodas, agrega valor. “Esse modelo traz o conceito de conforto e conveniência, trazendo o produto para próximo do público alvo”, complementa.

E foi desta forma que o empreendedor Thiago Tenório enxergou. Com o objetivo de fornecer um serviço rápido e cômodo, comprou uma van e montou um serviço de banho e tosa de cachorro à domicílio, o Bicho Feliz Pet Móvel. “Meu pai montou o negócio, então deixei meu antigo trabalho de mecânico e assumi o Pet Móvel. Hoje temos o ponto fixo e o móvel” conta. Para Tenório, há algumas vantagens no ponto móvel. “A vantagem é ser isento de algumas taxas e impostos, assim como não há custos com aluguel. Quem procura este serviço quer comodidade, além de que o animal passa menos tempo no banho e tosa, reduzindo o estresse do bichinho”, ressalta.

Tenório ainda destaca que por conta das pessoas terem uma vida mais corrida, o negócio móvel preenche essa lacuna. “A proposta da gente atende quem não tem tempo no dia a dia para levar o animal num ponto fixo”. conta. De acordo com o empreendedor, o investimento para um Pet Móvel custa em torno de R$ 70 mil a R$ 110 mil. “Em cerca de 2 anos já dá para ter um retorno”, afirma.

Fonte: Folha de PE | 12 de janeiro de 2020.