É possível salvar o pequeno lojista de shopping centers?

Foto: Mercado & Consumo

Durante a pandemia, nada menos que 1,3 milhão de empresas fecharam as portas no Brasil, sendo que 46% delas encerraram suas operações de vez – as demais ainda têm esperança de reabrir à frente, em algum momento. Das que pararam de funcionar em função da pandemia, 99% são de pequeno porte. Os dados são do IBGE e confirmam pesquisa divulgada no mês passado pelo Boa Vista mostrando que cerca de 95% dos pedidos de falência ou recuperação judicial no país, durante essa crise, se referem a pequenas empresas.

Não é à toa que Guilherme Weege, CEO do Grupo Malwee, definiu o momento atual como ‘a crise do pequeno negócio’. Afinal, são os pequenos os que mais sofrem com a falta de receitas provocada pelo fechamento do varejo, a dificuldade de acesso a linhas de crédito e a necessidade de abraçar a omnicanalidade, com evidente sacrifício da margem de venda.

No mundo dos shopping centers o cenário não é diferente. Levantamento realizado alguns anos atrás por Renata Gomes, experiente especialista no setor, revelou que 70% dos lojistas em shopping centers brasileiros possui apenas uma loja. A imensa maioria desses proprietários de uma única operação são pequenos empresários. Quando percorremos centros comerciais Brasil afora fica ainda mais evidente a importância do lojista independente ou pequeno franqueado, seja para completar o tenant mix ou para adicionar cor local à mescla de marcas nacionais e regionais. E são esses os mais expostos aos efeitos da crise, que obriga o varejo a apressar o passo para adequar-se às novas demandas dos consumidores ao mesmo tempo em que fecha a torneira dos recursos necessários para que os pequenos possam evoluir no seu modelo de negócios.

Fica a pergunta: será ainda possível salvar os pequenos lojistas dos shopping centers? Ou seremos obrigados a repaginar os centros comerciais contando com uma quantidade significativamente menor de comerciantes locais? A resposta à essa questão não é simples.

Para começo de conversa, é preciso admitir que parte dos pequenos lojistas dos shoppings não conseguirá mesmo atravessar a crise. Estimativas da Associação Nacional dos Restaurantes (ANR) indicam que de 15 a 20% dos restaurantes independentes ficarão pelo caminho. Em outros segmentos o cenário não é muito melhor.

Por outro lado, os shopping centers seguirão na sua metamorfose, em ritmo acelerado, transformando-se em destino de entretenimento e hospitalidade, repleto de restaurantes agradáveis, operações de lazer e varejistas capazes de proporcionar experiências e fomentar relacionamento, que impulsionarão vendas em múltiplos canais simultaneamente. Essas características aplicam-se a poucos lojistas de pequeno porte. Muitos desses pequenos deverão naturalmente migrar para o comércio de rua, strip malls, polos comerciais em terminais de metrô e ônibus e centros comerciais orientados para valor e conveniência. Como consequência, os shoppings aos poucos ganharão um perfil mais parecido com o dos malls americanos, onde apenas cerca de 10% do mix é ocupado por varejistas locais.

É claro que muitas tentativas de apoiar o pequeno lojista continuarão acontecendo. A indústria tem procurado fazer isso, oferecendo financiamento na composição do estoque e apoio na operação. A Associação Brasileira de Franquias (ABF) tem também demonstrado preocupação em atenuar as dificuldades de franqueadores e, principalmente, franqueados. E redes de shopping centers, como brMalls por exemplo, estão ativamente engajadas na luta pela sobrevivência de seus lojistas de menor porte.

Talvez, entretanto, todas essas iniciativas sejam apenas paliativas, com potencial para simplesmente adiar o que parece inevitável. O futuro dos shopping centers, com tudo o que isso traz de positivo e negativo, passa por uma redução considerável na quantidade de pequenos lojistas e uma concentração maior na participação das redes nacionais e regionais.

Quem viver, verá.

Fonte: Mercado & Consumo | 23 de julho de 2020