Como será o franchising do pós-pandemia

Foto: Mercado & Consumo

Quem atua no franchising já deve ter percebido o quanto o setor costuma ser resiliente e sobrevive às mais diversas crises que acometem a economia de tempos em tempos. Não somos invencíveis, mas somos sim resistentes. Denotamos a isso um fator intrínseco ao modelo de negócio de franquia e em como as pessoas em pouco tempo de atuação no sistema se dão conta do valor das relações para fazer dar certo.

No franchising a cooperação é a palavra chave e quando um ganha, todos devem ganhar.

Com a pandemia vimos que o valor das relações mais uma vez se sobressai. Franqueadoras indo em busca de soluções e negociações que pudessem acomodar melhor as fragilidades expostas pela pandemia, franqueados apoiando os demais da rede com ideias e compartilhamento de experiencias, uma necessidade tremenda em ser útil em prol de um bem maior, em se fazer mais pelos outros.

Em algumas redes ainda existia a divisão clara de atuação unidades próprias x franquias. Algo como nós x eles. Isso caiu, afinal, de portas fechadas todos tem as mesmas condições.

E, nesse processo, a transparência nas relações passou a ser chave, com a certeza de estarem lutando contra algo externo e maior do que se pudesse imaginar, o caminho foi achar alento na confiança mutua e na certeza da transmissão clara das informações e sem rodeios. As franqueadoras se viram obrigadas a enfrentarem de frente o problema, escutar sobre as dores dos franqueados, sobre as perdas, e com isso descobriram que tem uma coragem ainda maior de liderar e de levar a rede pelo caminho de seguir em frente. Chegando enfim, ao passo de endereçar soluções.

E elas vieram rápido

Uma celeridade “startupiana” na tomada de decisão nasceu. Desde a rede mais nova às mais maduras, a agilidade na estruturação de novos projetos foi recorde. Com o distanciamento, as empresas buscaram a digitalização de processos burocráticos e maior inteligência das operações, afinal, a tecnologia é uma das grandes aliadas para o ganho de eficiência.

E aliado a isso, as empresas, sejam elas franqueadoras ou não, passaram a enxergar os benefícios da flexibilização dos horários de trabalho e de se dar foco na produtividade e nas entregas e não tanto em carga horária, cumprimento de jornada. Maior responsabilidade para o funcionário, menor necessidade de controle pelo franqueador. A horizontalização das empresas chegou para ficar. 

Remoto e ativo

Como consequência no pós pandemia, poderemos ver nas franqueadoras a manutenção do trabalho remoto para as áreas administrativas e de suporte. Equipes comerciais e de expansão podem também estar menos em campo e mais ativas (e produtivas) no ambiente virtual/digital.

A consultoria de campo também passou por um processo de digitalização recorde. Quem ainda não utilizava plataformas online para aplicação de treinamentos e reuniões remotas com os franqueados se viu obrigado a mudar os quilômetros pelos bytes. A consultoria continua, apenas o campo é que ficou diferente.

Outro fator exposto de forma brutal foi a saúde dos pequenos negócios. Enquanto algumas unidades sofreram para ter caixa para pagar os salários do mês, outras tinham folego para aguentar o fechamento das lojas, pagamento de fornecedores e salários por alguns meses. E isso também se traduziu para as franqueadoras como uma necessidade muito forte de acompanhamento da gestão financeira das unidades. No franchising, cada franqueado é responsável pelo seu negócio, mas a franqueadora pode e deve apoiá-lo a se tornar um gestor melhor, oferecendo treinamento e suporte constante para que ele se mantenha saudável mesmo em condições adversas.

Quando se faz uma gestão próxima da rede com indicadores claros, muitas vezes suportados por um plano de excelência em que as unidades conseguem ter uma visão clara de sua situação em relação às demais unidades da rede, os sinais de alerta se acendem rápido. A unidade com problemas consegue saber no que está errando e no que pode melhorar. Quando se é um empreendedor individual, muitas vezes esses alertas nunca serão vistos ou pelo menos, não antes de ser tarde demais.

E a EXPANSÃO?

Sim, aqueles planos agressivos de expansão desenhados em 2019 para 2020 com certeza serão revistos ou totalmente modificados. Haverá certamente um receio maior dos candidatos à franquia de investir, e ainda mais, de investir em marcas novas ou ainda desconhecidas. Em contrapartida, as marcas mais consolidadas no setor sairão da pandemia mais fortalecidas.

Com a economia fragilizada, o acesso ao crédito será reduzido e os juros tendem a ser mais altos, o que pode fazer com que os candidatos repensem várias vezes antes de solicitarem crédito para investir num novo negócio.

Do ponto de vista da franqueadora existe o risco de se flexibilizar as regras e critérios de entrada de novos franqueados para que a expansão não emperre. Processo válido, desde que consciente dos riscos que isso traz. Um franqueado errado é mais prejudicial do que nenhum franqueado. Essa flexibilização não pode de forma alguma deixar a essência da marca desaparecer por conta da crise, não dá para entrar num jogo de vale tudo.

Mas também tivemos um efeito colateral positivo. É inegável que nesse processo da pandemia houve um novo olhar para os negócios de vizinhança e o comércio local. O modelo de negócios de franquia passou a ficar mais exposto, afinal “aquela loja da marca famosa da esquina não é daquele empresário multimilionário, mas do meu vizinho”. Pois é, a crise acabou por ampliar o conhecimento do setor e com isso, acender algumas luzes na mente de quem quer empreender.

Franqueadoras ou grupos formados por franqueados multiunidades que estavam mirando a estruturação do negócio para venda para fundos de private equity podem se preparar para uma due dilligence ainda mais rigorosa, mais focada na saúde dos negócios do que em sua vitalidade momentânea. Redes ou grupos que saírem dessa crise fortalecidos estarão na mira desses investidores.

Os modelos de negócios

Com a valorização do local como já mencionamos, também podemos ver uma nova tendência nos modelos de negócio formatados para atuar com franquias. Afinal, quando se formata um negócio para expandir com franquias, a ideia é criar um padrão que possa ser reconhecido em qualquer lugar do mundo, proporcionando a mesma experiência de marca a cada contato. No entanto, vemos uma possibilidade de o sistema começar a adotar uma maior flexibilização dos padrões das unidades – com a inclusão de características locais no formato global. Não a ponto de descaracterizar e colocar em xeque a consistência da marca, mas com uma dosagem suficiente para fazer com que o consumidor local se sinta parte da cultura do negócio.

Não é exatamente uma reversão da globalização como alguns especialistas mais extremistas tem provocado, é apenas um equilíbrio maior entre o local e o global, o tal do “glocal” – uma necessidade maior de entendimento e adaptação dos negócios de acordo com o comportamento do consumidor em diferentes mercados.

E por falar em comportamento, os benefícios da integração de canais – físico e digital – ficaram claros a todos. Se antes eram vistos como concorrentes agora são efetivamente receita adicional. E muito provavelmente o que temos dito sobre a integração das lojas franqueadas no processo logístico, começou a fazer sentido para as marcas. Afinal, por que não reduzir o tempo de entrega e ampliar a receita dos franqueados usando as unidades franqueadas como centros de distribuição para a última milha?

E finalmente a retomada

Será que vai ser Black Friday todo dia? Não, simplesmente não vamos poder considerar que apenas liquidações vão trazer os clientes de volta para as lojas.

Todo o protocolo de segurança será válido para fazer com que o consumidor se sinta seguro em voltar a frequentar o varejo físico. Não apenas do ponto de vista do valor pago por determinado produto ou serviço, mas até da segurança emocional proporcionada e constantemente reforçada pelas equipes da loja. Treinar o time de linha de frente sobre como receber as pessoas nessa fase inicial é fundamental.

Um grande risco é a ansiedade de voltar a vender provocar um distanciamento ainda maior das marcas com seu público. Não considerar o comportamento do consumidor pós pandemia na reabertura pode ser bastante arriscado. É preciso inclusive, ter um entendimento maior dos efeitos da pandemia nos diferentes mercados. Será necessário olhar para o comportamento da rede de forma diferente. Unidades localizadas em mercados mais afetados pela pandemia podem ter um consumidor mais reticente em comprar do que os consumidores de mercados menos atingidos pelo covid-19. A retomada, mesmo quando consideramos apenas o Brasil, será também, diversa.

Fonte: Mercado & Consumo | 05 de junho de 2020