Sem perdão

Parece nome de filme; não é. Por força do hábito, veio à mente o título que deram no Brasil para Easy Rider, de D. Hooper: Sem Destino. Substituir High Noon por Matar ou Morrer ou Shane por Os Brutos também amam é, no mínimo, falta de criatividade e ausência de bom gosto. Melhorou, sem dúvida, de uns tempos pra cá, mas, recordando Madre Frederica, os pecados continuam: The Hangover (A Ressaca) foi batizado de Se Beber não Case; Annie Hall, ficou como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e vai por aí.

Não vou falar sobre filmes e seus ‘maravilhosos’ títulos brasileiros, até porque ocupariam todo este espaço. Também na literatura acontece a mesma coisa, em menor escala. Há o caso de um autor (Jerome D. Salinger) que, antes de autorizar a edição em outra língua que não a inglesa, exigia do editor ver a capa e o título traduzido. Rejeitou alguns (capa e título), não se sabe quais.

Estava com o livro Uma Sensação Estranha, de Orhan Pamuk, guardado há meses. Aproveitei o momento especial que vivemos para ler essa obra de autor nascido em Istambul. O livro, pra mim, é um daqueles que marcam e não dá pra esquecer. Um misto de história, boa literatura, estilo diferenciado e boas informações – tudo pelo mesmo preço, distribuído em 589 páginas. Através dele, aprendi um pouco sobre a região, costumes, hábitos – muito mais que aprenderia, por exemplo, em um ano de escola tradicional. Confesso a minha ignorância, mas desconhecia o que era boza (bebida feita a partir de trigo fermentado), raki (bebida aromatizada com anis) e ayram (hamburger condimentado). A história se passa de 1969 a 2012.

No início conviviam – juntos e separados – turcos, sírios, judeus, albaneses, nativos  oriundos da Anatólia etc. Não tinham uma convivência de aproximação, mas habitavam em vilas, geralmente pobres, vivendo em seus ‘quadrados’. Com a influência de religiões e a entrada em cena da política, poder, interesses e grana, as comunidades foram se dispersando e se transformaram em nações que vivem em conflito até hoje. Muitos migraram para outras localidades – Europa e Américas, principalmente.

Respeitadas as proporções, há algumas semelhanças com o Brasil, a partir das migrações (internas ou não), a criação das comunidades com habitações precárias em áreas de risco, a luta pela sobrevivência, a violência, as desigualdades de Norte a Sul, a corrupção. E aí que chego ao título: não há atentuante para os que se aproveitam de uma estado generalizado de sofrimento (uma pandemia, por exemplo), para tirar proveito, para ganhar mais, para aumentar capital político. Pra mim, é delito inafiançável, grave, sem perdão.

Fonte: Diário de Pernambuco | 25 de junho de 2020